• Adultos que nasceram de cesárea têm maior chance de se tornarem hipertensos

    Organização Mundial da Saúde sugere que no máximo 15% dos partos sejam cesáreos; no Brasil, número chega a 55%

    Foto: Marcos Santos

    A coorte (grupo de indivíduos acompanhado no tempo) mais antiga do Brasil completou 40 anos. Neste mês, ocorreu um simpósio comemorativo da data. O estudo, pertencente ao conjunto de trabalhos relativos aos nascidos em Ribeirão Preto no ano de 1979, foi publicado recentemente no American Journal of Epidemiology. No ensaio, foi demonstrada a associação entre o parto cesáreo ao nascer e a hipertensão quando adulto. Aqueles que nascem por cesariana têm uma chance 50% maior de virem a se tornar hipertensos aos 25 anos de idade. Isto é, a probabilidade de ter pressão sanguínea alta nessa faixa etária cresce de 8% para 12%. O grupo de pesquisas, liderado pelo professor Marco Antonio Barbieri, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP), foi um dos primeiros do mundo a relacionar o procedimento cirúrgico com a maior chance de obesidade tardia e agora está na vanguarda novamente.

    “Organização Mundial da Saúde sugere que no máximo 15% dos partos sejam cesáreos. No Brasil, esse número chega a 55%. Em convênios, a taxa passa dos 80%. Essas estatísticas apontam que há algo de errado”, diz o professor da Faculdade de Medicina (FM), Alexandre Archanjo Ferraro, ao Jornal da USP no Ar. O País tem a segunda maior porcentagem de cesáreas no mundo. A hipertensão é uma das características mais importantes na origem do infarto cardíaco e do AVC. “O parto normal é fruto de milhões de anos de evolução. A tecnologia permitiu outra forma de nascimento, mas se paga um pedágio”, argumenta o médico.

    Os pesquisadores demonstraram a existência do fenômeno, embora ainda busquem o mecanismo responsável por essa programação, que pode durar por décadas. Ferraro ressalta que a afirmativa dos médicos “não é determinista, porém probabilística”, e propõe duas hipóteses para o ocorrido. A diferença entre as microbiotas intestinais do bebê, causando uma grande alteração do equilíbrio do organismo, uma vez que o corpo humano, segundo ele, é um grande ecossistema. “No parto natural, o recém-nascido já tem sua flora intestinal colonizada ao entrar em contato com o canal vaginal da mãe. No cirúrgico, a primeira interação da criança se dá com as bactérias do hospital”, explica. Outra possibilidade seria o choque hormonal causado pelo parto normal. “Acontece uma grande pressão fisiológica sobre o eixo hipotálamo, hipófise e (glândula) adrenal”, diz.

    Ferraro relata os desafios de realizar uma pesquisa do tipo. “Enquanto se pode fazer várias perguntas de pesquisa a uma coorte, dado às várias informações disponíveis, existe também o trabalho de acompanhar as pessoas do grupo de perto. Algumas falecem, outras se mudam.” Salvo que os cientistas têm de eliminar de um a um os outros possíveis responsáveis pela doença. “O tamanho do bebê, por exemplo, é associado ao parto cesáreo. A maior chance de hipertensão não se daria por esse indivíduo se tornar um adulto grande? Outros fatores, como aleitamento materno e condições socioeconômicas, foram considerados. No fim, comprovou-se a relação direta da pressão sanguínea alta com o procedimento cirúrgico”, conta. É um trabalho criterioso e demorado.

    Por Pedro Teixeira |Jornal da USP
    Editor Local: Willen Benigno de Oliveira Moura
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